Gestão de Crise no Mundo digital é tema de curso em Bauru, no dia 19/8

A Casa Midiática – empresa que abri em 2006 com o objetivo de promover atualização a profissionais e estudantes de Comunicação Social – está de volta com agenda de cursos na cidade de Bauru (SP). E quem abre essa agenda em 2017 é o jornalista, professor e escritor Gilberto Lorenzon. Com longa experiência em Assessoria de Comunicação, Gilberto – ou Giba como é chamado por amigos da área – é colaborador da Casa Midiática há dez anos e tem levado suas experiências a alunos de Jornalismo em diferentes faculdades paulistanas, além de ministrar palestras em cursos de curta duração e em congressos realizados Brasil afora. No dia 19/8, portanto, ele estará de volta a Bauru para falar sobre gestão de crise no mundo digital. Como reagir ao ter sua imagem (ou a imagem de sua empresa) detonada no Facebook? Como lidar com as notícias fakes? Como manter uma boa reputação nesse meio? Gilberto, que circula entre o digital e analógico, virá com bagagem pesada, repleta de dicas para quem quiser entender melhor esse universo.
Se eu fosse você garantiria um lugar no auditório da Fundeb/Unesp. As inscrições serão recebidas pelo portal Sympla até dia 10/8. Detalhes: https://www.sympla.com.br/curso-gestao-de-crise-no-mundo-digital__149304
Eu tô feliz pra caramba por revê-lo!
Até lá!

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Recomeço

2 de agosto de 2016 = 19 = 1 = recomeço!

Eram tempos de crise. Especialmente de identidade. Já não dava mais para tentar convencê-la a não partir. Era urgente achar um lugar de acolhimento e de identificação. Especialmente de identificação. Já estávamos em 2016 e nada (ou quase nada) havia mudado. A seu redor: egoismo, prepotência e sede por poder; ganância e egos exacerbados. No extremo, entreguismo, comodismo e apatia; falta absoluta de ambição.

Eram tempos cheios de um não pertencer. Você está mas em instantes não está mais. Tempos de on/off. E nada era mais dramático do que ter todas essas certezas e nenhuma ideia de saída.

Finalmente ela conseguia iniciar sua vida às seis da manhã, ainda que forçada por um corte na barriga. Aliás, aquele corte seria o marco inicial para a vida que sempre esteve na antessala. Costurado e latente, ele daria o tom. Seria a voz. Abriria os caminhos interrompidos pelo medo, pela dor, pela insegurança. Sim, um corte. O corte. Aquilo seria o despencar do penhasco. Seria o gozo. O amargo que mobiliza e faz agir. Agora ela não seria mais sozinha. Seria ela e esse corte, que diz tanto a um único ser. Seria ela e essa dor que liberta e traz sonhos à baila.

/…/

Agosto começava naquele conturbado 2016. Eu estava finalmente acordada desde seis da manhã. Algo de revelador morava ali. Os circulares passavam por minha rua, anunciando que a vida estava pulsando lá fora. Um novo mês havia começado e, com ele, a esperança. E com ele, a redenção. Eu estava certa de que deveria recomeçar: redefinir propósitos, metas, rumos. Poderia começar baixando o APP de um diário. Assim, poderia registrar tudo o que planejasse. Era isso. O que eu escrevesse, aconteceria. Era urgente, então, escrever. Depois, alguém, haveria de gostar daquilo. E se identificar. Alguém passaria olhos e coração nas linhas que eu redigisse. Alguém tocaria com dedos suaves as linhas que eu tecesse. Vírgula a vírgula. Ponto a ponto.
/…/

Era junho de 1910, Domingos era apenas um recém-nascido grande e feliz. Um bebê que nem imaginava que no ano seguinte, em junho de 1911, nasceria a mulher que lhe daria 12 filhos. E que o caçula chegaria em junho de 1955 e lá pelos 18 se envolveria com a mulher nascida em outubro de 1957. Com ela, teria sete filhos. Um deles, nasceria em agosto de 1974. E é ele, o Agostino, morto no mesmo ano, quem voltaria em espírito para avivar a existência mórbida daquela moça que marcava 40 em 2016.
Um numerólogo somaria tudo isso e nos daria um veredito. Talvez ele falasse que esses anos todos dá uma soma reduzida em 8 e que esse é o número do infinito. E que o infinito simboliza tudo: o começo, o meio e o fim. Simboliza a vida e a morte. E o eterno recomeçar. Ok. Ficarei com essa parte: recomeçar.

É só virar a página.

/…/

Junho de 2018, Vale Europeu. (soma 17 = 8 = infinito. Olha o recomeço de novo…)

A colheita do meio do ano estava belíssima. Vendemos quase tudo.
O artesanato também estava saindo feito água nas feiras de domingo.

E a crise…

Bem, a crise continua fazendo vítimas nas ruas e sendo explicada nos livros de história.

Um dia ectópico

placa_restrito

O relógio marcava zero hora e 46 minutos. As rodas daquela cadeira percorriam corredores silenciosos e frios. Meus olhos tinham 180 graus para fitar. De um lado janelas largas que davam para um jardim escuro. De outro, paredes verdes. Era longo o caminho entre a Enfermaria de Urgência e o Centro Cirúrgico. Durante todo o percurso choro copiosamente. Minha vida tinha sido zerada. O sentido de existir e o significado de tudo o que vivera até ali estavam em xeque. A montanha russa de emoções vividas nas últimas 48 horas viera à tona naqueles minutos em que uma enfermeira guiava meu corpo imóvel. (E aqui abro um parêntesis para alertar que na rede particular o paciente também sofre com laudos equivocados, com médicos omissos, relapsos e até ausentes. E se o paciente não for espertinho e se conhecer bem, vai se dar mal. Mas não é esse o meu foco aqui.)
Tentava distrair a minha mente da história que eu criava durante aquele percurso, com contornos ainda mais dramáticos. Apesar da miopia (antiga já), consigo ler o nome no crachá de quem me levava: Denise, acho. Mas também poderia ser Helena. A minha memória é incerta e traidora. Talvez porque a realidade se confunda o tempo todo com minhas fantasias, criações internas de nomes e personagens.
Tudo vinha à mente como num filme. Há algumas horas eu estava grávida. Apenas grávida com um beta HCG de 484.6. Depois um ultrassom simples trouxe o laudo de abortamento completo. Um segundo exame apontava alguma vida entre ovários e útero… O terceiro chamou a atenção para líquidos nas cavidades… E o quarto me levara até ali, naquele instante, quando eu caminhava para a sala onde aquela vida (havia mesmo vida?) seria ceifada de uma vez por todas. Uma das médicas inclusive já havia sentenciado: isso é gravidez laboratorial, não clínica. É inviável.
A quarta ultrassonografista, no entanto, buscou nos acalmar. Serena, olhos profundos e espirituais, ela disse:
– Fiquem em paz. Eu mesma já vi cada coisa acontecer… Por Deus nada é impossível.
A mensagem me soava cifrada. Ela teria confirmado o diagnóstico? Ela estava querendo dizer quê… O quê?
– O seu médico vai explicar tudo direitinho, ok?!
Eu não estava segura, mas sabia que o laudo dela seria decisivo. O seu nome eu me lembro: Flávia.

/…/
É difícil chegar aos 40 sem nunca ter pensado seriamente em engravidar e ver, de repente, um resultado positivo que vira tudo de ponta cabeça (de um jeito feliz, vale dizer). E em poucas horas perceber que o sonho é, na verdade, um pesadelo em preto e branco, que fala de vida e também de morte.

Chegamos na porta de acesso restrito. Lá, sou entregue a dois rapazes vestidos de azul.

-Eu sou o (como era mesmo o nome dele? Digamos que…) Gerson e esse aí é o (quem mesmo? Bom, vamos chamá-lo de…) Plínio. Nós vamos ajudar o doutor Norton na cirurgia. Agora fique calma, tá?! Recebo um beijo de meu marido. E sou levada à sala cirúrgica.

Eles percebem que meu sapato havia ficado na antessala… Tentam sem sucesso achar meu marido, que já tinha sido convidado a se retirar daquela área restrita. Decidem guardar minha sapatilha preta num saco plástico. Agora, precisam me transferir de maca.

-Você consegue nos ajudar? Pode elevar o corpo?

-Claro. Vamos lá.

Sou transferida para a mesa de cirurgia. Aviso aos rapazes que estou com um absorvente. Eles parecem estar acostumados com a cena toda. Eu já tinha passado da fase de me constranger por isso, afinal havia acabado de fazer o quarto exame de ultrassonografia transvaginal em menos de 24 horas, sempre sangrando bastante.

Enquanto isso, eles conversam entre si sobre o dia a dia da profissão, o pouco salário e um desabafa com o outro sobre as dificuldades com a esposa ou namorada… Preenchem formulários de papel e num monitor. Um deles erra o nome do anestesista, que ainda não estava na sala, o outro corrige sorrindo. É o cotidiano deles. Para mim, um ritual tenso.

Uma terceira pessoa adentra a sala. Dessa vez uma enfermeira a quem os rapazes se referiam como chefe. Eles se gabavam de já ter adiantado tudo o que fora possível.

-Aqui é equipe classe A, chefe. (disse Gerson)

Serena, tranquila em seus olhos azuis atrás de discretos óculos, ela reparou que eu estava com o nariz trancado de tanto chorar. E se antecipou:

-Vou ver se o doutor me autoriza a colocar um remedinho no seu nariz, tá bom?! Mas fica calma…

Ela volta com o remédio devidamente autorizado e já pinga um gota em cada narina. O que me traz alívio quase imediato. E avisa que aquele tubinho de remédio era meu. Nessa hora todos eles  parecem perceber o choro dolorido e puxam conversa. Ficam sabendo um pouquinho sobre mim. Sem filhos, 40 anos, com primeira gravidez e: ectópica. Os olhares são complacentes e solidários.

  • Fique tranquila. Deus sabe o que faz. (disse Plínio)

Na sequencia, entra o anestesista e se apresenta (é claro que eu não lembro o nome dele).

-Você tem alergia?

(Penso no processo alérgico que havia me acometido desde o final de março… Penso na rinite que descobri ter; nas placas vermelhas pelo corpo; na coceira intensa e nas investigações da alergista, do dermarto, do acupunturista…) Respondo:
– Não que eu saiba.

  • Alguma doença?

(Penso no diagnóstico de fibromialgia; na doença autoimune que dá reagentes no anti-lúpico há anos, mas de forma inespecífica… )
– Não. Nenhuma!

  • Diabetes, pressão alta?

  • Não.

É impressionante a capacidade exercida por médicos anestesistas para dar anestesia sem que o paciente perceba.  Enquanto ele conversava comigo deve ter aplicado a tal RAC, mas eu realmente não percebi nada. Estava na expectativa de ser convidada a sentar para que a anestesia fosse aplicada na região lombar… E cadê? Quando me dei conta já estava num estado zen.
Não sei se alguém já lhe disse isso: tomar anestesia é uma delícia! A gente fica num estado de espírito leve, com a percepção ativa, mas sem nenhum estresse. Você ouve tudo, entende o que está se passando, mas não fica naquela pressão de analisar e responder de imediato. Aliás, ao estar anestesiada nada corresponde ao termo imediato.  O som que chega vem de looonge… Tudo parece um eco, eeecooo, eeeecooooo!

E  foi nesse estado que vi e ouvi o médico e os enfermeiros conversarem enquanto mexiam em mim. A certa altura eles levantaram mais o campo cirúrgico e minha visão ficou comprometida. No final, até percebia e sentia que mexiam em mim, mas sem dor alguma, é claro. Ouvi quando o doutor Norton disse que mostraria a peça ao meu marido.

  • Mas vamos limpar para ele não se impressionar tanto por causa do sangue…
    Lembro-me de ter interrompido a conversa deles por algumas vezes, fazendo perguntas sobre a condição da trompa, se era mesmo o que o exame apontava?! E o médico apenas me dizia:
    “Descanse agora. Depois conversamos”.
    Por volta de quatro da manhã sou encaminhada, na maca, para o leito 1 do quarto de número 13. Nas portas vizinhas, plaquinhas de maternidade (daquelas que faço nas horas vagas) traziam as expressões  “Cheguei”;  “Bem-vinda”. Logo descobri que David e Maria Elena tiveram a dádiva de nascer naquele dia. Que sorte para os pais deles.

Enquanto eu me recolhia para tentar superar a dor do corte abdominal resultante de uma cirurgia aberta para a retirada da bolsa gestacional e do embriãozinho que se instalara na minha trompa direita, as mulheres ao lado recebiam visitas de familiares e amigos exultantes com a chegada dos bebês.
Nessa hora pensei na tal humanização de que tanto ouço falar nos hospitais… Será que não haveria uma ala mais apropriada para quem, de certa forma, vivia um luto? Seria bom para a minha saúde mental ver tanta alegria latente? Tantos chorinhos de vida? O pensamento viajava naquele longo 29 de julho de 2016, quando a nutricionista bateu à porta e entrou no quarto para saber o que eu iria escolher no menu.

-Mãezinha, o que você prefere para o almoço: filé de frango acebolado com legumes no vapor ou bife? E no jantar: carne com polenta ao molho ou abobrinha recheada com carne moída?

Meu pensamento voa. Se ela trabalha ali, se estava com meu prontuário, como podia me chamar de “mãezinha”?!? Como?!?  Não havia o mínimo de organização ali? Ainda que desconsiderem meu estado psicológico, será que meu cardápio não teria nenhuma restrição em detrimento do cardápido das outras mulheres? Penso no contexto, penso no texto dito por ela (como se aquele diminutivo carinhoso trouxesse conforto a todas que estavam ali, sem exceção) e no quanto aquela suposta humanização  era uma falácia. E, de olhar através, respondo:

  • Frango.

  • E no jantar?

  • Abobrinha recheada. Obrigada!

Mais algumas boas horas de exercícios (práticos e mentais) sobre limitação física, dependência, altruísmo  e resiliência… Até que, finalmente, posso colocar minhas sapatilhas pretas e ser carregada para o meu #lardocelar. Em repouco forçado, vou “passar agosto esperando setembro, se bem me lembro”.

E, como diz o boêmio jornalista Chico Pinheiro: “É vida que segue!”.
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