Efeitos de verdade e poder  

Olá!
Hoje quero compartilhar com você uma análise que redigi sobre as relações entre Verdade e Poder, apontadas em textos da obra “A verdade e as formas jurídicas”, de Michel Foucault. É daqueles textos grandinhos, para se ler com calma, num momento de desejo de reflexão. Se puder – e quiser -, registre, por favor, seus comentários e críticas.
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[por Elaine de Sousa. nanedesousa@gmail.com]

michel_foucault_by_ivankorsario-d5qvsbt(imagem: http://www.uib.no/)

Ao analisar especificamente as relações entre verdade e poder, é apropriado destacar dos textos apresentados em conferências na PUC/RJ (na década de 70) – e depois transformados na obra A verdade e as formas jurídicas – os três eixos de pesquisas pontuados pelo filósofo francês Michel Foucault: o domínio do saber a partir de práticas sociais, a análise do discurso (como jogo estratégico e polêmico) e a constituição do sujeito (fundado e refundado pela história).

É a partir desses eixos que Foucault discute – e até provoca – de forma ampla e complexa temas como conhecimento, poder e verdade. Para ele, as relações de poder ocorrem em todos os lugares, até mesmo naqueles onde não se percebe isso e são elas que qualificam alguns discursos como verdadeiros e, ao mesmo tempo, desqualificam outros como falsos. Portanto, segundo Foucault, a produção da verdade é totalmente filtrada por essa rede de relações de poder. E é à estrada viva da história que o filósofo atribui a definição pela sociedade de tipos de subjetividades, formas de saber e relações entre o homem e a verdade – sempre pautadas nas práticas regulares ou regras da sociedade em questão. É assim que ele afirma existirem duas histórias da verdade: a interna e a externa. A primeira teria relação intrínseca com seus princípios de regulação, assim como a história das ciências. A segunda nasceria a partir da definição de determinadas regras de jogo, com suas formas de subjetividade, domínio de objeto e tipos de saber.

Sob a ótica desta análise, a busca pela verdade está ligada a formas de controles políticos e sociais criados na gênese da sociedade capitalista, no final do século XIX. Foucault explica, por exemplo, a origem do chamado inquérito (como forma de pesquisar a verdade no âmbito da ordem jurídica) e dos exames (formas de análise inventada para responder aos problemas jurídicos e penais). Modelos utilizados até hoje na tentativa de se chegar à “verdade” dos fatos, sejam jurídicos ou científicos. O que é a anamnese, por exemplo, senão uma forma de se aproximar ao máximo dos detalhes que poderão levar a um diagnóstico médico?! Para reforçar o exemplo pelo viés do universo da medicina, se for analisada a relação médico/paciente num consultório e o discurso deste ato comunicativo, é clara a relação de poder do médico para com o paciente. Tanto que muitos pacientes acatam a informação recebida, sem nenhum questionamento, mesmo que tenham restado dúvidas. A escolha das palavras, a linguagem usado no contexto do consultório (muitas vezes ainda no formato ‘uma mesa entre duas cadeiras’ e, neste caso, quem está atrás da mesa é detentor do conhecimento consultado) e toda a persuasão utilizada pelo doutor que detém o conhecimento médico tornam seu discurso verdadeiro para o paciente – que passivamente recebe a informação. Neste caso, o poder é repressor. Mas não é só isso. Ele também cria efeitos de verdade e de saber. Afinal, no exemplo da relação médico/paciente há também uma ideia de confiança pelo efeito do saber.

Outra ideia inspirada por Foucault como forte exemplo do poder exercido vem dos confessionários – manifestação clássica do poder político da Igreja Católica, mas também personificação de uma sociedade que prezava pela intimidade e discrição. Os erros e deslizes eram confessados apenas na presença do sacerdote detentor do poder de absolvição – após as devidas punições, é claro. É da constituição de um estado de regras e imposições que parece vir a ideia de empoderamento e de produção de verdades discutidas por Foucault, segundo o qual:

“O poder em qualquer sociedade precisa de uma delimitação formal para ser justificado de forma abstrata suficiente que seja introjetada psicologicamente, a nível macro social, como uma verdade a priori, universal. Desta necessidade, desenvolvem-se as regras do direito, surgindo, portanto, os elementos necessários para a produção, transmissão e oficialização de ‘verdades’.” (FOUCAULT, 1979)

Mas, com o tempo as formas de poder vão sendo reformuladas… Isso porque a própria constituição do ser humano como sujeito é redefinida com o decorrer da história. Assim, também, a dinâmica do poder vai sendo transformada.

Nos dias atuais, observando o formato Big Brother amplamente disseminado na  televisão, certamente veremos uma nova manifestação de poder e produção de verdade. Dessa vez, exercido pela mídia e pelos próprios sujeitos envolvidos nessa teia de interesses em que a persuasão acaba por criar verdades que satisfazem a um determinado núcleo de poder estabelecido. O grupo ou “panelinha” criado no enredo do programa, por exemplo, elabora uma narrativa capaz de comover e estabelecer uma espécie de contrato fiduciário com o espectador – neste caso, conduzido pela persuasão dos chamados enunciadores do discurso. São novas normas e valores. Muito diferentes daquelas em que se prezava a intimidade. Agora, o poder está na exposição. Na ‘coragem’ de falar a milhares de espectadores o que se passa, por exemplo, nas entranhas da vida conjugal. É a nova ordem instalada, com sujeitos que se redefinem e se multiplicam cotidianamente na sociedade e nas chamadas redes sociais. Sob esta perspectiva, as reflexões de Foucault seguem atuais e tão provocadoras quanto foram nas décadas de 70, 80 e 90, pois embora as regras do jogo mudem, a relação conturbada e complexa entre poder e produção de verdade é ainda reconhecida na sociedade atual. Da mesma forma, parece atual sua concepção construtivista de que o sujeito é criado no “social”.

Por fim, não é possível finalizar esta leitura sem registrar algumas observações:

– Por meio de mecanismos, estratégias e táticas de poder o discurso produzido pode estabelecer um contrato de veridicção e é certamente instrumento de poder. Exemplo: imposição de limites por meio de palavras de ordem nos discursos políticos;

– Em todo o texto analisado, o conceito de verdade só existe com o conceito de poder e esta relação mostra-se circular, já que o poder não só reprime como cria efeitos de verdades e saber, da mesma forma que a verdade cria efeitos de poder;

– Em longas citações de Nietzsche, Foucault discorre sobre a história do saber e reflete sobre a invenção – e não origem do conhecimento -, que de todo modo é tido como fonte direta de dominação. (E.S.)