Um dia ectópico

placa_restrito

O relógio marcava zero hora e 46 minutos. As rodas daquela cadeira percorriam corredores silenciosos e frios. Meus olhos tinham 180 graus para fitar. De um lado janelas largas que davam para um jardim escuro. De outro, paredes verdes. Era longo o caminho entre a Enfermaria de Urgência e o Centro Cirúrgico. Durante todo o percurso choro copiosamente. Minha vida tinha sido zerada. O sentido de existir e o significado de tudo o que vivera até ali estavam em xeque. A montanha russa de emoções vividas nas últimas 48 horas viera à tona naqueles minutos em que uma enfermeira guiava meu corpo imóvel. (E aqui abro um parêntesis para alertar que na rede particular o paciente também sofre com laudos equivocados, com médicos omissos, relapsos e até ausentes. E se o paciente não for espertinho e se conhecer bem, vai se dar mal. Mas não é esse o meu foco aqui.)
Tentava distrair a minha mente da história que eu criava durante aquele percurso, com contornos ainda mais dramáticos. Apesar da miopia (antiga já), consigo ler o nome no crachá de quem me levava: Denise, acho. Mas também poderia ser Helena. A minha memória é incerta e traidora. Talvez porque a realidade se confunda o tempo todo com minhas fantasias, criações internas de nomes e personagens.
Tudo vinha à mente como num filme. Há algumas horas eu estava grávida. Apenas grávida com um beta HCG de 484.6. Depois um ultrassom simples trouxe o laudo de abortamento completo. Um segundo exame apontava alguma vida entre ovários e útero… O terceiro chamou a atenção para líquidos nas cavidades… E o quarto me levara até ali, naquele instante, quando eu caminhava para a sala onde aquela vida (havia mesmo vida?) seria ceifada de uma vez por todas. Uma das médicas inclusive já havia sentenciado: isso é gravidez laboratorial, não clínica. É inviável.
A quarta ultrassonografista, no entanto, buscou nos acalmar. Serena, olhos profundos e espirituais, ela disse:
– Fiquem em paz. Eu mesma já vi cada coisa acontecer… Por Deus nada é impossível.
A mensagem me soava cifrada. Ela teria confirmado o diagnóstico? Ela estava querendo dizer quê… O quê?
– O seu médico vai explicar tudo direitinho, ok?!
Eu não estava segura, mas sabia que o laudo dela seria decisivo. O seu nome eu me lembro: Flávia.

/…/
É difícil chegar aos 40 sem nunca ter pensado seriamente em engravidar e ver, de repente, um resultado positivo que vira tudo de ponta cabeça (de um jeito feliz, vale dizer). E em poucas horas perceber que o sonho é, na verdade, um pesadelo em preto e branco, que fala de vida e também de morte.

Chegamos na porta de acesso restrito. Lá, sou entregue a dois rapazes vestidos de azul.

-Eu sou o (como era mesmo o nome dele? Digamos que…) Gerson e esse aí é o (quem mesmo? Bom, vamos chamá-lo de…) Plínio. Nós vamos ajudar o doutor Norton na cirurgia. Agora fique calma, tá?! Recebo um beijo de meu marido. E sou levada à sala cirúrgica.

Eles percebem que meu sapato havia ficado na antessala… Tentam sem sucesso achar meu marido, que já tinha sido convidado a se retirar daquela área restrita. Decidem guardar minha sapatilha preta num saco plástico. Agora, precisam me transferir de maca.

-Você consegue nos ajudar? Pode elevar o corpo?

-Claro. Vamos lá.

Sou transferida para a mesa de cirurgia. Aviso aos rapazes que estou com um absorvente. Eles parecem estar acostumados com a cena toda. Eu já tinha passado da fase de me constranger por isso, afinal havia acabado de fazer o quarto exame de ultrassonografia transvaginal em menos de 24 horas, sempre sangrando bastante.

Enquanto isso, eles conversam entre si sobre o dia a dia da profissão, o pouco salário e um desabafa com o outro sobre as dificuldades com a esposa ou namorada… Preenchem formulários de papel e num monitor. Um deles erra o nome do anestesista, que ainda não estava na sala, o outro corrige sorrindo. É o cotidiano deles. Para mim, um ritual tenso.

Uma terceira pessoa adentra a sala. Dessa vez uma enfermeira a quem os rapazes se referiam como chefe. Eles se gabavam de já ter adiantado tudo o que fora possível.

-Aqui é equipe classe A, chefe. (disse Gerson)

Serena, tranquila em seus olhos azuis atrás de discretos óculos, ela reparou que eu estava com o nariz trancado de tanto chorar. E se antecipou:

-Vou ver se o doutor me autoriza a colocar um remedinho no seu nariz, tá bom?! Mas fica calma…

Ela volta com o remédio devidamente autorizado e já pinga um gota em cada narina. O que me traz alívio quase imediato. E avisa que aquele tubinho de remédio era meu. Nessa hora todos eles  parecem perceber o choro dolorido e puxam conversa. Ficam sabendo um pouquinho sobre mim. Sem filhos, 40 anos, com primeira gravidez e: ectópica. Os olhares são complacentes e solidários.

  • Fique tranquila. Deus sabe o que faz. (disse Plínio)

Na sequencia, entra o anestesista e se apresenta (é claro que eu não lembro o nome dele).

-Você tem alergia?

(Penso no processo alérgico que havia me acometido desde o final de março… Penso na rinite que descobri ter; nas placas vermelhas pelo corpo; na coceira intensa e nas investigações da alergista, do dermarto, do acupunturista…) Respondo:
– Não que eu saiba.

  • Alguma doença?

(Penso no diagnóstico de fibromialgia; na doença autoimune que dá reagentes no anti-lúpico há anos, mas de forma inespecífica… )
– Não. Nenhuma!

  • Diabetes, pressão alta?

  • Não.

É impressionante a capacidade exercida por médicos anestesistas para dar anestesia sem que o paciente perceba.  Enquanto ele conversava comigo deve ter aplicado a tal RAC, mas eu realmente não percebi nada. Estava na expectativa de ser convidada a sentar para que a anestesia fosse aplicada na região lombar… E cadê? Quando me dei conta já estava num estado zen.
Não sei se alguém já lhe disse isso: tomar anestesia é uma delícia! A gente fica num estado de espírito leve, com a percepção ativa, mas sem nenhum estresse. Você ouve tudo, entende o que está se passando, mas não fica naquela pressão de analisar e responder de imediato. Aliás, ao estar anestesiada nada corresponde ao termo imediato.  O som que chega vem de looonge… Tudo parece um eco, eeecooo, eeeecooooo!

E  foi nesse estado que vi e ouvi o médico e os enfermeiros conversarem enquanto mexiam em mim. A certa altura eles levantaram mais o campo cirúrgico e minha visão ficou comprometida. No final, até percebia e sentia que mexiam em mim, mas sem dor alguma, é claro. Ouvi quando o doutor Norton disse que mostraria a peça ao meu marido.

  • Mas vamos limpar para ele não se impressionar tanto por causa do sangue…
    Lembro-me de ter interrompido a conversa deles por algumas vezes, fazendo perguntas sobre a condição da trompa, se era mesmo o que o exame apontava?! E o médico apenas me dizia:
    “Descanse agora. Depois conversamos”.
    Por volta de quatro da manhã sou encaminhada, na maca, para o leito 1 do quarto de número 13. Nas portas vizinhas, plaquinhas de maternidade (daquelas que faço nas horas vagas) traziam as expressões  “Cheguei”;  “Bem-vinda”. Logo descobri que David e Maria Elena tiveram a dádiva de nascer naquele dia. Que sorte para os pais deles.

Enquanto eu me recolhia para tentar superar a dor do corte abdominal resultante de uma cirurgia aberta para a retirada da bolsa gestacional e do embriãozinho que se instalara na minha trompa direita, as mulheres ao lado recebiam visitas de familiares e amigos exultantes com a chegada dos bebês.
Nessa hora pensei na tal humanização de que tanto ouço falar nos hospitais… Será que não haveria uma ala mais apropriada para quem, de certa forma, vivia um luto? Seria bom para a minha saúde mental ver tanta alegria latente? Tantos chorinhos de vida? O pensamento viajava naquele longo 29 de julho de 2016, quando a nutricionista bateu à porta e entrou no quarto para saber o que eu iria escolher no menu.

-Mãezinha, o que você prefere para o almoço: filé de frango acebolado com legumes no vapor ou bife? E no jantar: carne com polenta ao molho ou abobrinha recheada com carne moída?

Meu pensamento voa. Se ela trabalha ali, se estava com meu prontuário, como podia me chamar de “mãezinha”?!? Como?!?  Não havia o mínimo de organização ali? Ainda que desconsiderem meu estado psicológico, será que meu cardápio não teria nenhuma restrição em detrimento do cardápido das outras mulheres? Penso no contexto, penso no texto dito por ela (como se aquele diminutivo carinhoso trouxesse conforto a todas que estavam ali, sem exceção) e no quanto aquela suposta humanização  era uma falácia. E, de olhar através, respondo:

  • Frango.

  • E no jantar?

  • Abobrinha recheada. Obrigada!

Mais algumas boas horas de exercícios (práticos e mentais) sobre limitação física, dependência, altruísmo  e resiliência… Até que, finalmente, posso colocar minhas sapatilhas pretas e ser carregada para o meu #lardocelar. Em repouco forçado, vou “passar agosto esperando setembro, se bem me lembro”.

E, como diz o boêmio jornalista Chico Pinheiro: “É vida que segue!”.
……………………………………………………
comente, critique: nanedesousa@hotmail.com

Quando a prioridade é você

ESPELHO-590x352
Disciplina. Organização. Interesse verdadeiro pelo outro.
Essas são algumas das características necessárias para manter atualizado um espaço como este. Para manter seu interesse por aqui…
Mas, a verdade é que esse exercício ainda me é difícil. E eu acredito que sei o motivo de tamanha dificuldade: isso daqui é um pouco meu. É um canto que alimento para mim – e para você, é claro. Mas não existe obrigação e ninguém vai ser prejudicado se eu não atualizar, entende? Não é um trabalho, um compromisso. Não é um serviço prestado.
É algo de meu interesse. Quase de foro íntimo. E daí?
Daí que já constatei (inclusive em consultório) que tenho dificuldade de me ter no meu foco.
Bom, aí que pensei: talvez isso possa acontecer com você também. Quem sabe você está entre as milhares de pessoas que nesses tempos, pós-tudo, acaba enchendo a agenda de compromissos importantes e quase nunca tem um tempinho para olhar para si; para cuidar de si. Para fazer aquelas coisinhas simples ou complexas – e até burocráticas – que dizem respeito somente a você.
É um defeito sim. Mas é também um sinal de que você pode ser mais um ser humano que está no “piloto automático”. E a programação desse “piloto” leva a ações em busca de sucesso (perante o outro), satisfação (para o outro), ideal de felicidade (para ser mostrada ao outro). E aí a gente fica, assim, meio “travado” quando precisa focar no eu verdadeiro, nos valores interiores, na visão de si para si.
/…/
Tem tantas coisas que eu gostaria de lhe dizer.
Queria dizer, por exemplo, que priorizar a si mesmo não é necessariamente egoísmo. Pode ser só amor próprio.
Dizer que é preciso se perdoar para amar ao próximo e para perdoar o outro.
E que você tem muita coisa boa aí dentro. Mas se nada disso for valorizado, ainda assim haverá um tesouro aí. E isso é seu.
Por fim, queria dizer que essa busca é árdua, demorada, por vezes até aparentemente inócua. Mas ainda assim creio que vale a pena seguir procurando.
…………………………….
#dicadodia: “O Eu profundo e os outros eus”, de Fernando Pessoa.

Sinal vermelho

gkunzt-l
Na terceira vez que despejei o homem que amo eu estava sangrando.

– Some daqui! Você me faz infeliz há cinco anos. Agora chega!

Semanas se passaram e eu ainda tento entender aquela frase cheia de veneno. Aquele esbravejar desproposital. Quem o conhece sabe que ele jamais deu um passo para me fazer sofrer. Pelo contrário. Há anos cuidava de mim. Zelava pelo meu bem-estar e respeitava todas as minhas escolhas. Até as mais estranhas. Ele sabia, por exemplo, que eu mantinha amizade fiel com todos os meus ex; alguns deles ainda cheios de segundas intenções. E costumava dizer:

– Eu confio em você, não neles.

Definitivamente aquele homem me amava. E eu o mandei embora. Ele me amava e eu o mandei embora. Tive a coragem de jogar toda a roupa dele para fora de casa em plena véspera de ano-novo. Aquilo não era justo. Não era amigável. Não era atitude de quem é amada. Mas eu agi assim. E não havia mais volta.

Estranhamente, aquele sofrimento me trazia vida pulsante. Colocava meus dedos de volta a teclar. De volta a distribuir palavras com a intenção de emocionar e de provocar. Outra frase que ele costumava repetir e que merece ser lembrada é muito emblemática, especialmente hoje:

– Como confiar num ser que sangra todos os meses e sobrevive, forte?!?

E como negar que sua desconfiança fazia total sentido?

Dias úteis – será?

imagem: http://3.bp.blogspot.com

Sabe quantos dias úteis nos restam ainda em 2011? Exatamente 185, a partir de hoje (4 de abril). Dá certa angústia só de pensar nisso. São pouco mais de 4.400 horas… E a sensação é de que não teremos tempo de fazer tudo o que planejamos.

Dia desses, ao ser pega escrevendo às duas da manhã, fui acusada pelo amor da minha vida de trabalhar demais e de não saber me planejar.

Veja você. Depois de 13 anos atolada no mercado de trabalho, eis que decidi voltar aos bancos da universidade. Estudo todos os sábados das 8 da manhã às 18 horas. E como trabalho a semana toda, cerca de 9 horas por dia, e ainda faço uns “bicos” ao chegar em casa, resta-me apenas o domingo para todos aqueles afazeres domésticos, incluindo compra de supermercado.

Para não perder o bonde e nem deixar de me divertir um pouco, opto por ir ao cinema no tempo que me resta: sessão das 23h10 no domingão. Neste dia específico, na volta, decidi consultar e-mail e finalizar um texto que tinha começado a seis mãos na faculdade e que precisava ser entregue na segunda (mais exatamente em menos de cinco horas). É nesta hora que, com cara de preocupado com minha saúde, ele vem e faz a discreta acusação.

Aí pergunto: faço o jantar, limpo a casa, estudo, trabalho, dou conta de fazer tudo o que me proponho, separo um tempo até para a diversão e ainda sou acusada de organizar mal o meu tempo? Só porque é madrugada e ainda estou produzindo? (bem humorada, a propósito).

Paro, penso e chego à conclusão de que ele pode ter razão. Talvez eu não devesse ser tão pilhada. Talvez as mulheres não devessem se desdobrar para dar conta de tudo. Afinal, quando demonstramos essa capacidade nossas atividades entram na rotina e passam a ser consideradas normais. Ninguém sabe ao certo o quanto nos dedicamos. O quanto é difícil fazer tudo e ainda cuidar um pouco do cabelo, manter uma aparência mais ou menos aceita… E ainda ter paciência para comentar a obra (única no mês) que o nosso companheiro do gênero masculino criou.

No balanço geral, penso que, sim, meus dias têm sido úteis. Mas a pergunta é: úteis para quem?