O dono da cidade

imagem-corpo-noticia394Não havia dúvidas de que todas as frases que definiam os rumos do município vinham dele. Um velhote sorridente e querido pelos filhos da cidade. Suas festas eram regadas a muito conchavo. Sua família não pedia licença; subia direto para os camarotes. E era lá, no camarote, que ele encaixava seus fiéis amigos. Seus empregados também eram protegidos como pintinhos pela galinha-mãe. Ninguém mais entrava “na melhor vidinha do seu mundo”.
Na cidade, ninguém tinha dúvidas de que o prefeitinho dançava a coreografia do Oto e sua turma. Gente da própria prefeitura dizia que Oto conhecia segredos do chefe do município, o que, obviamente, o tornava um pouco menos “chefe” perante o “dono” da cidade.
Eram histórias e mais histórias sobre seus desmandos. Mas eu mesma não tinha provado de sua arrogância. Até que um dia senti o peso de um pedido daquele homem. Quem intermediava sempre se mostrava constrangido. Eu procurava atender – entre coagida e constrangida. E pensava sempre: ele precisa entender que seu poder não abre [nem fecha] todas as portas.
Então comecei a bolar um plano… A ideia era simples. Ele precisava se sentir de mãos atadas.
Comecei a pesquisar seus hábitos. Um deles era o tal do clube do uísque. Encontro manjado, bem comum entre os endinheirados. Oto e os seus se encontravam para bebericar o drinque esnobe todas as quartas-feiras – dia de jogo. Era um evento petit comité. Era isso! Bingo!
Num agosto – mês do cachorro louco -, mandei em nome dele um convite especial para a presidente da Sebes (Secretaria do Bem-Estar Social), com 45 adesões, pedindo que homens acolhidos no albergue do município na noite da próxima quarta fossem convidados para um evento especial com ele no clube do uísque. No dia marcado, maltrapilhos, cheirando a sabonete barato, os homens foram chegando ao clube, todos com uma adesão em mãos… Os seguranças ficaram sem reação. Alguns pensaram que se tratava de um convite do Oto mesmo. E os “convidados” não fizeram cerimônia. Eles se esbaldaram a noite toda. Os “otoguetes” demonstravam asco no olhar. Oto cumprimentava um e outro e logo tratava de lavar as mãos. Mas naquela noite seu poder precisou ficar no bolso. Ele teve de engolir. Sua reuniãozinha foi interrompida pelos rapazes sem teto. Restou a ele sorrir de lado, e doar seus escoceses 60 anos para quem só recebia dele refrigerantes sem rótulo em festa de peão.

Recortes cortantes

cacos
Eumika chorou forte ao nascer, mas viveu apenas 24 horas e meia. Filha de uma menina de 13 anos, desde a concepção, suas chances eram pequenas.
Nicanor, 88, aguardava, ansioso, por uma cirurgia nos olhos quando foi atropelado em pleno domingo de Carnaval. Não, o motorista não prestou socorro.
Dora recebeu a indicação de um remédio que não estava na lista do Ministério da Saúde. O médico que assinou a receita levou uma advertência. Dora morreu de um tipo raro de câncer em menos de cinco meses de luta.
O apresentador da tevê conseguiu segurar mais de 12 horas de audiência com essas três histórias.
Mentalmente eu me preparava para morrer. Estava difícil continuar diante de tantas provas de desamor. De egoísmo. De barbárie.
Mas antes queria me vingar. Pensei em começar justamente por aquele apresentador de tevê. Não era possível. Ele não percebia que, ao gritar daquele jeito e repetir milhares de vezes a história triste e decadente daquelas pessoas, estava afetando a honra delas para além do que a vida já fazia?
Era difícil acreditar que alguém era capaz de espremer o sangue do outro com o único propósito de ganhar audiência e “méritos” jornalísticos! Mas o que poderia sensibilizar aquela criatura? Em minha mente passavam apenas cenas grotescas, vis, escatológicas… E foi entre uma imagem e outra que planejei tudo.
Passei a seguir o jornalista sempre que ele saia do prédio da emissora. Fotografei cada passo.
Da tevê para o supermercado. De lá, para sua casa. Depois para a igreja. E da igreja para o bar… Foi assim por uns 12 dias. Sempre a mesma rotina. Tudo fotografado. Aí gravei um áudio com a seguinte frase:
– Pior do que a desgraça das vidas alheias que você retrata e pisoteia todos os dias é o vazio indescritível da sua vida!
Guardei as fotografias num envelope, juntei um pendrive com o áudio e coloquei tudo numa caixa de papelão. Cobri com estrume e postei no correio, destinada a Mateus Rubriano – o jornalista sem ética.
O próximo passo seria sensibilizar o dono da cidade. Ele tinha de entender que seu poder não era capaz de transformar tudo. Eu, por exemplo. Mas como?