Quando a prioridade é você

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Disciplina. Organização. Interesse verdadeiro pelo outro.
Essas são algumas das características necessárias para manter atualizado um espaço como este. Para manter seu interesse por aqui…
Mas, a verdade é que esse exercício ainda me é difícil. E eu acredito que sei o motivo de tamanha dificuldade: isso daqui é um pouco meu. É um canto que alimento para mim – e para você, é claro. Mas não existe obrigação e ninguém vai ser prejudicado se eu não atualizar, entende? Não é um trabalho, um compromisso. Não é um serviço prestado.
É algo de meu interesse. Quase de foro íntimo. E daí?
Daí que já constatei (inclusive em consultório) que tenho dificuldade de me ter no meu foco.
Bom, aí que pensei: talvez isso possa acontecer com você também. Quem sabe você está entre as milhares de pessoas que nesses tempos, pós-tudo, acaba enchendo a agenda de compromissos importantes e quase nunca tem um tempinho para olhar para si; para cuidar de si. Para fazer aquelas coisinhas simples ou complexas – e até burocráticas – que dizem respeito somente a você.
É um defeito sim. Mas é também um sinal de que você pode ser mais um ser humano que está no “piloto automático”. E a programação desse “piloto” leva a ações em busca de sucesso (perante o outro), satisfação (para o outro), ideal de felicidade (para ser mostrada ao outro). E aí a gente fica, assim, meio “travado” quando precisa focar no eu verdadeiro, nos valores interiores, na visão de si para si.
/…/
Tem tantas coisas que eu gostaria de lhe dizer.
Queria dizer, por exemplo, que priorizar a si mesmo não é necessariamente egoísmo. Pode ser só amor próprio.
Dizer que é preciso se perdoar para amar ao próximo e para perdoar o outro.
E que você tem muita coisa boa aí dentro. Mas se nada disso for valorizado, ainda assim haverá um tesouro aí. E isso é seu.
Por fim, queria dizer que essa busca é árdua, demorada, por vezes até aparentemente inócua. Mas ainda assim creio que vale a pena seguir procurando.
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#dicadodia: “O Eu profundo e os outros eus”, de Fernando Pessoa.

Pulo do gato

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[comente: nanedesousa@gmail.com]

“O pulo do gato”. Sempre que penso nessa frase me lembro de um sujeito desajeitado, que conheci nos anos 90. Idolatrado por bêbados [ainda não inventaram um termo politicamente correto para bêbado não, né?!], melancólicos e mulheres carentes, ele não me enganava. Era criativo, sim. Mas também era impostor. Fingia o tempo todo. Decidido, inteligente, otimista. Tudo balela. Era um comedor de arroz, medroso e cheio de toques. Um conhecedor de enciclopédias e perigosamente pessimista. Mas sua atitude fingida dava certo. Enganava, por vezes, a si próprio. Não deixa de ser uma receita de vida… E não é que de tanto pensar sobre o que seria o pulo do gato, o dele foi essa receita? Virou palestrante internacional. Mas até hoje sofre por medo de entrar num avião!
E o meu pulo do gato? O que seria?
Já vendi filtro. Investi numa locadora. Vendi ovos. E viajei trecho. Mas tudo isso me deu muito trabalho e poucas alegrias. Depois, restaurante vegano. Grife de roupas e acessórios para pessoas com deficiência. Coletivo de compras online. Tudo passageiro.
O amontoado de fatalidades de minha vida era o tal pulo do gato. Bastava reunir tudo num livro de auto-ajuda, afinal, como diz minha esposa, vendendo bem vai me ajudar – e muito!
A danação seria juntar as histórias de um jeito envolvente, sedutor. Você não lê aquilo que não lhe prende, lê?!? Tá vendo… Eu sei disso… Só não sei como prender.
Se fosse mulher eu saberia: bastam palavras doces e um ar atrapalhado, meio carente. E mais algumas coisitas, é claro: pegada forte, boa memória e sensibilidade para perceber o tom novo do cabelo ou a sobrancelha desenhada. Aí, meu irmão, elas nozeiam.
Mas aqui a história é outra. Eu preciso segurar você aqui, por essas linhas, contando minha vida…
Como dizer, por exemplo, que desde pequeno fui ensinado a ter medo?
Como contar que minha iniciação sexual foi praticamente uma violência cometida pela empregada do meu avô, que era velha e taradona?
Como explicar a falta que meu pai fez, depois que resolveu se separar da Dulce para morar com a prima dela?
E a tal carência de mãe? Será que explica meu afeto compulsivo pelas mulheres a ponto de as escolher como objeto perseguido nas esculturas?
Vou tentar. Você me acompanha?

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Ele saltou de quase três metros de altura. Eu mijei nas calças. Marcão deu 220 na rodovia da morte. Eu comprei um fusca, porque sempre tive medo de moto. [Quer ler mais? Deixe seus comentários…]

Efeitos de verdade e poder  

Olá!
Hoje quero compartilhar com você uma análise que redigi sobre as relações entre Verdade e Poder, apontadas em textos da obra “A verdade e as formas jurídicas”, de Michel Foucault. É daqueles textos grandinhos, para se ler com calma, num momento de desejo de reflexão. Se puder – e quiser -, registre, por favor, seus comentários e críticas.
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[por Elaine de Sousa. nanedesousa@gmail.com]

michel_foucault_by_ivankorsario-d5qvsbt(imagem: http://www.uib.no/)

Ao analisar especificamente as relações entre verdade e poder, é apropriado destacar dos textos apresentados em conferências na PUC/RJ (na década de 70) – e depois transformados na obra A verdade e as formas jurídicas – os três eixos de pesquisas pontuados pelo filósofo francês Michel Foucault: o domínio do saber a partir de práticas sociais, a análise do discurso (como jogo estratégico e polêmico) e a constituição do sujeito (fundado e refundado pela história).

É a partir desses eixos que Foucault discute – e até provoca – de forma ampla e complexa temas como conhecimento, poder e verdade. Para ele, as relações de poder ocorrem em todos os lugares, até mesmo naqueles onde não se percebe isso e são elas que qualificam alguns discursos como verdadeiros e, ao mesmo tempo, desqualificam outros como falsos. Portanto, segundo Foucault, a produção da verdade é totalmente filtrada por essa rede de relações de poder. E é à estrada viva da história que o filósofo atribui a definição pela sociedade de tipos de subjetividades, formas de saber e relações entre o homem e a verdade – sempre pautadas nas práticas regulares ou regras da sociedade em questão. É assim que ele afirma existirem duas histórias da verdade: a interna e a externa. A primeira teria relação intrínseca com seus princípios de regulação, assim como a história das ciências. A segunda nasceria a partir da definição de determinadas regras de jogo, com suas formas de subjetividade, domínio de objeto e tipos de saber.

Sob a ótica desta análise, a busca pela verdade está ligada a formas de controles políticos e sociais criados na gênese da sociedade capitalista, no final do século XIX. Foucault explica, por exemplo, a origem do chamado inquérito (como forma de pesquisar a verdade no âmbito da ordem jurídica) e dos exames (formas de análise inventada para responder aos problemas jurídicos e penais). Modelos utilizados até hoje na tentativa de se chegar à “verdade” dos fatos, sejam jurídicos ou científicos. O que é a anamnese, por exemplo, senão uma forma de se aproximar ao máximo dos detalhes que poderão levar a um diagnóstico médico?! Para reforçar o exemplo pelo viés do universo da medicina, se for analisada a relação médico/paciente num consultório e o discurso deste ato comunicativo, é clara a relação de poder do médico para com o paciente. Tanto que muitos pacientes acatam a informação recebida, sem nenhum questionamento, mesmo que tenham restado dúvidas. A escolha das palavras, a linguagem usado no contexto do consultório (muitas vezes ainda no formato ‘uma mesa entre duas cadeiras’ e, neste caso, quem está atrás da mesa é detentor do conhecimento consultado) e toda a persuasão utilizada pelo doutor que detém o conhecimento médico tornam seu discurso verdadeiro para o paciente – que passivamente recebe a informação. Neste caso, o poder é repressor. Mas não é só isso. Ele também cria efeitos de verdade e de saber. Afinal, no exemplo da relação médico/paciente há também uma ideia de confiança pelo efeito do saber.

Outra ideia inspirada por Foucault como forte exemplo do poder exercido vem dos confessionários – manifestação clássica do poder político da Igreja Católica, mas também personificação de uma sociedade que prezava pela intimidade e discrição. Os erros e deslizes eram confessados apenas na presença do sacerdote detentor do poder de absolvição – após as devidas punições, é claro. É da constituição de um estado de regras e imposições que parece vir a ideia de empoderamento e de produção de verdades discutidas por Foucault, segundo o qual:

“O poder em qualquer sociedade precisa de uma delimitação formal para ser justificado de forma abstrata suficiente que seja introjetada psicologicamente, a nível macro social, como uma verdade a priori, universal. Desta necessidade, desenvolvem-se as regras do direito, surgindo, portanto, os elementos necessários para a produção, transmissão e oficialização de ‘verdades’.” (FOUCAULT, 1979)

Mas, com o tempo as formas de poder vão sendo reformuladas… Isso porque a própria constituição do ser humano como sujeito é redefinida com o decorrer da história. Assim, também, a dinâmica do poder vai sendo transformada.

Nos dias atuais, observando o formato Big Brother amplamente disseminado na  televisão, certamente veremos uma nova manifestação de poder e produção de verdade. Dessa vez, exercido pela mídia e pelos próprios sujeitos envolvidos nessa teia de interesses em que a persuasão acaba por criar verdades que satisfazem a um determinado núcleo de poder estabelecido. O grupo ou “panelinha” criado no enredo do programa, por exemplo, elabora uma narrativa capaz de comover e estabelecer uma espécie de contrato fiduciário com o espectador – neste caso, conduzido pela persuasão dos chamados enunciadores do discurso. São novas normas e valores. Muito diferentes daquelas em que se prezava a intimidade. Agora, o poder está na exposição. Na ‘coragem’ de falar a milhares de espectadores o que se passa, por exemplo, nas entranhas da vida conjugal. É a nova ordem instalada, com sujeitos que se redefinem e se multiplicam cotidianamente na sociedade e nas chamadas redes sociais. Sob esta perspectiva, as reflexões de Foucault seguem atuais e tão provocadoras quanto foram nas décadas de 70, 80 e 90, pois embora as regras do jogo mudem, a relação conturbada e complexa entre poder e produção de verdade é ainda reconhecida na sociedade atual. Da mesma forma, parece atual sua concepção construtivista de que o sujeito é criado no “social”.

Por fim, não é possível finalizar esta leitura sem registrar algumas observações:

– Por meio de mecanismos, estratégias e táticas de poder o discurso produzido pode estabelecer um contrato de veridicção e é certamente instrumento de poder. Exemplo: imposição de limites por meio de palavras de ordem nos discursos políticos;

– Em todo o texto analisado, o conceito de verdade só existe com o conceito de poder e esta relação mostra-se circular, já que o poder não só reprime como cria efeitos de verdades e saber, da mesma forma que a verdade cria efeitos de poder;

– Em longas citações de Nietzsche, Foucault discorre sobre a história do saber e reflete sobre a invenção – e não origem do conhecimento -, que de todo modo é tido como fonte direta de dominação. (E.S.)

entrevista> Cassiano Rolim e seu olhar de repórter

Antes de mais nada, um aviso: Para ler e ouvir as entrevistas desta coluna, recomendo que você chegue em casa, respire, vista-se confortavelmente e aí, sim, arrume um cantinho aconchegante e mergulhe aqui. É um convite para VC deixar a correria do cotidiano e exercitar um pouco as longas conversas. Bom chá!
CR3

O entrevistado dessa semana já é meu velho conhecido. Intermediei muitas pautas com ele na cidade de Bauru (SP). Algumas renderam matérias de rede, como uma levada ao ar pela Globo News, sobre um simpático construtor de brinquedos; outra, para uma série sobre Terceiro Setor, em que testemunhei ele mesmo indo atrás de alugar um cão da raça Dálmata para recontar a história de um professor aposentado da USP… Dividi mais coisas com ele, mas isso ficou lá atrás. O que restou nesse nosso presente é admiração profissional. O gaúcho Cassiano Kieling Sebold Barros Rolim – ou apenas Cassiano Rolim -, filho de Helga Rosane e de  Flávio, é um jornalista empenhado, curioso, daqueles que sabem fazer uma boa apuração e que têm prazer em contar a história vivenciada. Seus textos primam pelo rigor com o idioma. Suas frases têm ritmo e têm conteúdo. Ele também é um pai zeloso. Irmão amoroso. Filho querido. Bem, acho que foi casado duas vezes e tinha fama de namorador… Hoje, aos 36, dizem que está mais centrado em relacionamentos duradouros. E uma coisa é certa e nenhuma ex dele pode negar: Cassiano sempre foi fiel a sua busca pela felicidade pessoal e profissional.
A ideia de entrevistá-lo neste espaço, nessa nova etapa do Blog, veio justamente porque ele ainda é um dos poucos jornalistas que conversam comigo sobre Jornalismo com veia crítica, sim, mas também com paixão pelo ofício. Trocamos figurinhas, como dizem. Desabafamos sobre fatos cotidianos e conflitos da profissão. E suas ideias sobre a área assim como o entendimento claro sobre ética, direitos humanos e outras questões fundamentais para nossa atuação profissional me levaram a ter vontade de dividir a história desse repórter com você, meu leitor/ouvinte.
Cassiano Rolim já está na estrada do Jornalismo há mais de 16 anos… E apesar de sua pouca idade já sentiu muita poeira no rosto ao longo de sua trajetória… Trabalhou em afiliadas da Rede Globo nas cidades de Florianópolis (SC), Bauru e Sorocaba (no interior paulista) e em Resende (na região serrana do Rio de Janeiro)… Teve uma passagem rápida pela Record Paulista também em Bauru e depois seguiu viagem para mais longe. A convite, foi repórter nacional da Rede Record nos estados do Pará e do Amazonas – onde viu, ouviu e viveu muitas histórias da vida real. Pelas suas contas, em razão da profissão, já morou em sete cidades brasileiras… Mas é ele mesmo quem vai nos contar mais detalhes dessas andanças e de seu olhar de repórter…
Como hoje ele atua em Goiânia (GO), o “chá” foi online. Marcamos a entrevista para depois das comprinhas de supermercado dele, num dia chuvoso aqui e lá… Dia difícil, aliás, porque, apesar de tanta chuva, as torneiras estão secas. Segundo vi no JC, 140 mil moradores de Bauru que dependem do abastecimento do Rio Batalha estão sem água – e sem previsão. Mas essa é outra história. Só citei as chuvas porque isso deve ter atrapalhado a conexão… E, apesar de todas as tecnologias disponíveis, essa entrevista foi um tanto estranha. Fui mandando as perguntas pelo messenger do Facebook e Cassiano gravou as respostas… Para você acompanhar essa conversa “meio muda”, listo as perguntas abaixo… As respostas podem ser conferidas aqui nesse áudio.

Perguntas enviadas:
1) Cassiano, quantas andanças hein… Antes de falar delas, diz onde você está hoje? E fazendo o quê…
2) Onde você se formou e qual a melhor lembrança da faculdade?
3) Suas passagens por agências de comunicação foram ainda durante o curso… Depois fincou raiz mesmo no Telejornalismo, não é isso? Que telejornalismo se fazia no interior paulista no começo dos anos 2000?
4) O que mudou de lá pra cá?
5) O que as linhas editoriais representam (e quanto podem interferir) na atuação do repórter do ponto de vista ético?
6) Hoje estão na moda vts engraçadinhos e informais… Mas eu me lembro que você fazia isso há muito tempo… Vi matérias suas, entre 2005 e 2010, ousadas para a época – interativas, literárias, humanizadas… Lembro de você andando de mula pelo trânsito de Sorocaba, por exemplo… Você acha que as pessoas entendiam aquela sua linguagem, na época? E como você vê essa linha em que estão apostando hoje – como uma novidade…
7) Seu texto dá uma passeada pelo Jornalismo Literário… Como você vê e usa isso a
favor de suas reportagens?
8) Se pudesse voltar ao tempo, faria Jornalismo novamente?
9) Pode contar alguma focada sua?
10) Daria alguma dica para quem estuda ou pensa estudar Jornalismo hoje?

Bate-bola

Para os ouvidos…
CR: David Bowie, Belchior.

Para os olhos
CR: Uma fotografia que me intrigue, emocione e faça refletir.

Leitura de cabeceira…
CR: Todos (os possíveis) do Saramago, Budapeste, Leite Derramado, Benjamin, Meu Irmão Alemão – do Chico, biografias, romances, ficção, grandes reportagens em livro.

Um autor fatal?
CR: Gabriel García Márquez.

Quem bate um bolão no Jornalismo?
CR: Kotscho, Xico Sá, Eliane Brum, Pedro Vedova, Rodrigo Alvarez, reportagens da BBC em geral.

O que não tolera nas pessoas?
CR: Injustiça, preconceito, deselegância, falta de humanismo e solidariedade, discurso religioso se sobrepondo a fatos científicos, egocentrismo.

Um verbo…
CR: Compartilhar.

Uma meta…
CR: Conseguir harmonizar família, trabalho e sonhos.

O Jornalismo vale quanto pesa?
CR: Se ele for profundo, sim. Se for raso, vale uma passada de olhos.

O sentido da vida…
CR: Fisicamente falando, o sentido da vida é conseguir ficar vivo ao máximo, escapar de inimigos – dos germes aos predadores – procriar, dar condições de sobrevivência à prole e ao seguimento da espécie. Os outros sentidos que buscamos são abstrações e, como tais, subjetivas, adaptadas individualmente. Mas, vá lá, como somos hoje mais de sete bilhões no planeta, o sentido da nossa existência deveria ser viver com qualidade, garantindo o mínimo para isso a cada ser humano. Partilhemos! De tecnologia, de amor, de paz e de alimento e água.

Sua paz…
CR: Ar montanhoso.

Qual a próxima parada?
CR: Onde eu possa continuar sendo útil e que me proporcione conhecimento e alegria. Esse lugar pode sempre me surpreender. Mas, se eu pudesse escolher imediatamente, um lugar onde o sol não me frite os miolos. Funciono sempre melhor à temperatura amena.

Obrigada!

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Quer ver e saber mais? Espia o Instagram dele!